4.9.07

Eu também não te condeno

Pode procurar que você não vai achar. Não importa aonde vá, estou absolutamente convencido de que há duas coisas que você nunca vai achar. Você pode correr o mundo e o tempo, e tenho certeza que jamais conseguirá achar alguém que não se envergonhe de algo em seu passado. Para qualquer lugar que você vá, lá estarão elas, as pessoas que gostariam de apagar um momento, uma fase, um ato, uma palavra, um mínimo pensamento. Todo mundo tenta disfarçar, e certamente há aqueles que conseguem viver longos períodos sem o tormento da lembrança. Mas mesmo estes, quando menos esperam são assombrados pela memória de um ato de covardia, um gesto de pura maldade, um desejo mórbido, um abuso calculado, enfim, algo que jamais deveriam ter feito, e que na verdade, gostariam de banir de suas histórias ou, pelo menos, de suas recordações.

Isso é uma péssima notícia para a humanidade, mas uma ótima notícia para você: você não está sozinho, você não está sozinha. Inclusive as pessoas que olham em sua direção com aquela empáfia moral e sugerem cinicamente que você é um ser humano de segunda ou terceira categoria, carregam uma página borrada em sua biografia, grampeada pela sua arrogância e selada pelo medo do escândalo, da rejeição e da condenação no tribunal onde a justiça jamais é vencida. Você não está sozinho. Você não está sozinha. Não importa o que tenha feito ou deixado de fazer, e do que se arrependa no seu passado, saiba que isso faz de você uma pessoa igual a todas as outras: a condição humana implica a necessidade da vergonha.

A segunda coisa que você nunca vai encontrar é um pecado original. Não tenha dúvidas, o mal que você fez ou deixou de fazer está presente em milhares e milhares de sagas pessoais. Não existe algo que você tenha feito ou deixado de fazer que faça de você uma pessoa singular no banco dos réus – ao seu lado estão incontáveis réus respondendo pelo mesmíssimo crime. Talvez você diga, “é verdade, todos têm do que se envergonhar, mas o que eu fiz não se compara ao que qualquer outra pessoa possa ter feito”. Engano seu. O que você fez ou deixou de fazer não apenas se compara, como também é replicado com absoluta exatidão na experiência de milhares e milhares de outras pessoas. Isso significa que você jamais está sozinho, jamais está sozinha, na fila da confissão.

Talvez por estas razões, a Bíblia Sagrada diz que devemos confessar nossas culpas uns aos outros: os humanos não nos irmanamos nas virtudes, mas na vergonha. Este é o caminho de saída do labirinto da culpa e da condenação: quando todos sussurrarmos uns aos outros “eu não te condeno”, ouviremos a sentença do Justo Juiz: “ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.

É isso, ou o jogo bruto de sermos julgados com a medida com que julgamos. A justiça do único justo reveste os que têm do que se envergonhar quando os que têm do que se envergonhar desistem de ser justos.

24 Comments:

Blogger keila said...

Procurei em seu blog um email para onde pudesse escrever diretamente a você. Não encontrei!
Tenho lido os seus livros, na verdade, tenho lido varios livros de autores que abordam a espiritualidade cristã. E em todos eles me deparo com questionamento que chega a me incomodar.
Esse questionamento não tem muito em comum com o texto em qustão. E até tem , porque nele (no questionamento que farei) há a necessidade do perdão a si mesmo, a não auto condenação...

Queria entender a complexa colocação de que numa relação entre um homem e uma mulher ligados atraves do matrimonio não há possibilidade de rupturas pq quem escolhe os caminhos de Deus não pode(?) reconhecer um erro de escolha do parceiro(a) cometido no passado. Erro esse que pode estar associado a diversos motivos (falta de maturidade e auto conhecimento seriam alguns exemplos). E ao perceber que sua relação não está boa, não há afinidades, nem cumplicidades , nem corpartilhamento de ideias inclusive no plano espiritual, não há compartilhamento de atitudes no campo sexual, ou seja, há um completo descompasso entre o casal no que diz respeito a vida dos dois como casal, que eles tenham que manter essa relação após diversas tentativas de entendimento. Há de se pregar o amor fraternal nesse caso? É assim que Deus determina? A familia deve ser mantida as custas da negação do outro lado do ser humano que é a sua realização tb como homem carnal que é? Afinal, quem nos deu a carne foi o Deus. E por que temos que nega-la em detrimento a um amor fraternal?
Acho que como cristãos que somos devemos sim, ao fazer a conversão ao cristianismo, seguir esse ensinamento de Cristo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!
Mas existe outras formas de amar que diferenciam-se do amor fraterno, obrigatorio e voluntário a todos aqueles que aplicam os ensinamentos cristãos. Então o homem irá se encontrar eternamente na luta entre a dicotomia Espírito X Carne e, fazendo uma analogia ao psicologico, dicotomia entre a Razão X Emoção. O homem tendo que negar a sua emoção, tendo que negar-se a si mesmo...
Não consigo enteder essa dicotomia, essa fragmentação do homem!

10:07 PM  
Blogger prlevi said...

Ed,

Você, Silvia e alguns preciosos irmãos da IBAB sussurram todas as vezes que os encontro: "eu também não te condeno".

Só consegui seguir até aqui na Jornada por ouvir essa poderosa frase de alguns preciosos e fundamentais irmãos.

Na Jornada,

Levi Araújo

10:34 AM  
Blogger Gilberto Jr said...

"replicado com absoluta exatidão" é exagero. Acho que uma atitude só é absolutamente igual a si mesma. Mas isso é implicância minha :)

Este texto soa como auto-ajuda, por sua simplicidade - o que não é uma característica forte nos seus textos - e pela redação bonita, cuidados. Achei isso ótimo.

4:07 PM  
Blogger Daniel Bedhung said...

Bom ler palavras assim neste tempo em que o moralismo evangélico está tomando conta...
Obrigado por compartilhar.
Abraço,

4:10 PM  
Blogger kenosispib said...

Querido Ed,tenho lido muito seus textos e sempre passo p/ minha turma do seminário.Tenho crscido muito e me libertado de muitos pré-conceitos evangélicos!!
um abrço carinhoso.

4:46 PM  
Blogger Maya said...

Que texto bom! Que sopro novo do Espírito!

10:47 PM  
Blogger Mamanunes said...

Querido pastor, venho beber da sua fonte.
Obrigada por nos consolar. ...

"...eu também não te condeno."

Posso contar uma experiência prática da confissão "uns aos outros".
Aprendí com os passos de Alcoólicos Anonimos, antes de me converter:
"Admitir perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata das nossas falhas."
Não é maravilhoso despir-se e se ver igual a tantos...não mais sós?

Carinhosamente
Graça e paz!
:o)

8:52 AM  
Blogger Dos dois lados do Equador said...

O exemplo da MamaNunes acima tem total consonância com o texto: o AA é um lugar onde sente-se muito mais a vontade (pode ser um casebre no meio do nada) do que a esmagadora maioria das igrejas (inda que seja na Zona Sul carioca).

Pecadores é o que somos, não somos chamados para ser anjos.

Apenas Homens.

11:51 AM  
Blogger Marcus Rios said...

Graça, Paz e Alegria!
Pr Ed! Como é bom ler palavras sábias e graciosas...
É meu caro...
"Eu tb não te condeno", e nem a niguém e aprendo tb, a n me condenar...

Marcus Rios (www.pensamentosmarcusrios.blospot.com)

Sola Gratia!

11:06 PM  
Blogger Ricardo Facó said...

Inspiradíssimo hein!? Dá até orgulho de recomendar o seu blog no meu blog. Obrigado por esclarescer mais essa faceta da realidade humana! Aprendi a amar mais um bocadinho agora.

2:47 PM  
Blogger Jane said...

Oi Pr. Ed,

Tudo bem aí cotigo, a familia e igreja? Espero que sim.
Bem, vc nao me conhece, mas, ja tive o prazer de ouvi-lo pregar na minha igreja aqui na Florida, a PIBBSF.
Ha pouco tempo encontrei seu blog, e visito sempre pra aprender mais e mais contigo.
Seu texto veio a calhar, pois, acabo de conversar sobre isso com meu irmao, que fazia 3 meses que nao falava comigo. Exatamente sobre confissao e perdao de ofensas. Vou enviar pra ele.
Sou grata a Deus por levantar homens com sua dedicacao para nos trazer esta palavra!!

Um grande abraço!!

12:25 AM  
Blogger Exemplo AVERA said...

Muito bom
Essa é a nossa história

1:13 PM  
Blogger Alecrim said...

Só tenho lágrimas de alívio e gratidão ao ler este texto.

4:33 PM  
Blogger Luiz Di Dio said...

Quem há de atirar a primeira pedra? Quem?
Aos poucos, vamos saindo um por um...
Pastor Ed, muito bom o seu texto.

10:58 AM  
Blogger Luciano Meirelles Azevedo said...

Olá Ed. Belo texto.

aproveito para aqui deixar o blog do meu pai, para que você possa visitá-lo. www.irlandpereiradeazevedo.blogspot.com

Luciano

6:16 PM  
Blogger PPRamada said...

Eu linkei você há algum tempo e vez por outra eu volto pra acrescentar algo em minha vida.

Deus continue em você!

10:24 AM  
Blogger Cesar Cruz said...

Oi Ed,

Excelente este texto, Ed! Parabéns! Tomei a liberdade de inseri-lo em meu blog, no rodapé (seção: "Os textos que eu gostaria de ter escrito"). Sou membro da Betesda, mas tb grande apreciador da tua visão.
Parabéns!
Cesar Cruz, São Paulo

12:04 PM  
Blogger Guiomar Barba said...

Olá Pastor,

Vendo sua coerência nas abordagens, gostaria de saber qual resposta o senhor teve para a Keila sobre matrimônio.
Não tenho seu e-mail. Obrigada. Guiomar Barba.

10:29 AM  
Blogger Pastora Guiomar said...

Guiomar Barba esperando resposta no davidguiomar@hotmail.com ou no blog www.davidguiomar.blogspot.com
Obrigada.

8:25 PM  
Blogger Ciba said...

Antes de julgarmos ou apontarmos, realmente o caminho é nos olharmos no espelho. E se o homem se envergonha do que fez no passado, deve com este "erro" aprender, e não cometê-lo novamente. Afinal, para isso que servem os erros: para aprendermos, crescermos como seres humanos, filhos de Deus que somos. E a partir do momento em que os arrependemos, estamos pedindo desculpas em silêncio, pois acredito que o maior sofrimento do homem é o arrependimento, é a auto punição.
E lembremos: tudo na vida é aprendizado, estamos em constante atualização de nosso ser, o que depende apenas de nós, mais ninguém. Deus faz por aqueles que querem fazer, os sinais são dados o tempo todo, basta apenas querermos e estarmos prontos a enxergá-los.

2:49 PM  
Blogger graça que falta said...

otima reflexão somente uma mente licida poder vê e refretir sobre as verdades que não mentem...
Deus te abençoe Ed.

4:30 PM  
Blogger Luis Inácio Júnior said...

Fico sempre impressionado com a capacidade do pr. Ed de dizer verdades "antigas" com um frescor tão maravilhoso. Faz até com que tenhamos a vontade de dizer: por que eu não disse isto desta maneira? Parabéns Ed e continue nos dando o presente da sua escrita que tanto nos inspira.

2:02 PM  
Blogger Daniel Guedes said...

Prezado Renê...
Tive o primeiro contato com teu blog hj.
Estou maravilhado de encontrá-lo, servo de DEUS inteligente, disposto a estabelecer uma revisão de balizas no ensinamento cristão.
Agradeço pela bênção dos teus escritos. São uma decodificação simples de verdades sagradas e eternas.
Que DEUS te abençoe...
Quando for a SP, já sei que comunidade visitar.
A propósito, a minha aqui em João Pessoa é a Cidade Viva, uma igreja batista com visão e propósitos muito convergentes à IBAB.
www.cidadeviva.org
Grande abraço!!!

4:25 AM  
Blogger Sandra Lúcia said...

Que texto maduro! Em todo contexto tratou simplesmente que todos nós temos
erros e por isso não devemos condenar os
outros...realmente as pessoas tratam os erros dos outros como se nunca tivessem
errado, sem misericórdia, enquanto o próprio Jesus que não tinha pecado algum
usou sua maravilhosa misericórdia!
Parabéns, autor pela seu texto, aliás, tudo que voce escreve é muito bom!!!

8:38 AM  

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Ed René Kivitz
Pastor da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), autor e conferencista.
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    David Bosch
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