27.3.07

Jugo suave

Os rabinos são intérpretes da Lei. Sua ocupação é discernir como viver a vontade de Deus expressa na Lei. Por esta razão têm autoridade para proibir e permitir, dizer o que pode e deve ser feito para que a Lei seja cumprida e que não pode e não deve ser feito para que a Lei seja abolida. O conjunto de permissões e proibições de um rabino consistia no “jugo do rabino”. Todo rabino tem um jugo, que seus discípulos assumem como a melhor maneira de cumprir a Lei. Todo rabino ensina sob o jugo de outro rabino. Até que apareça algum rabino que afirme ter seu próprio jugo, independentemente do jugo dos rabinos mais antigos. Para ganhar autoridade de ter seu próprio jugo, o novo rabino deve ser autorizado por pelo menos dois rabinos reconhecidos pela comunidade de rabinos. Quando um novo rabino ganha autorização para ter seu próprio jugo, é dito que ele ganhou as chaves do reino, e agora está apto para permitir e proibir, isto é, dizer o que deve e o que não deve, o que pode e o que não pode ser feito por quem deseja cumprir a Lei.

Jesus entrou em cena sob o testemunho de João Batista, e sobre ele se materializou o Espírito Santo na forma corpórea de uma pomba, seguida da voz dos céus: “Este é meu Filho amado, ouçam o que ele diz”. Dessa maneira, Jesus recebeu autorização de duas fontes de autoridade para ter seu próprio jugo, isto é, recebeu as chaves do reino, e desde então passou a ensinar dizendo: “Ouvistes o que foi dito, eu, porém, vos digo”. Convidava pessoas para que se submetessem ao seu conjunto de permissões e proibições dizendo: “Meu jugo é suave e meu fardo é leve”. Ao final de seu ministério terreno disse a Pedro, que representava a igreja, a comunidade dos discípulos de Jesus: “Dou a vocês as chaves do reino”, e assim transferiu à sua igreja a autoridade para ligar e desligar, proibir e permitir.

Os apóstolos compreenderam isso e utilizaram essa prerrogativa em Atos 15, quando decidiram aliviar o jugo que pesava sobre os ombros dos novos cristãos, decidindo que estavam livres de cumprir a Lei de Moisés, devendo observar apenas três ou quatro regras. Em 1Coríntios 7 o apóstolo Paulo também usou “as chaves do reino” para legislar a respeito do divórcio. No tempo de Jesus os rabinos que seguiam Hilel acreditavam que se podia divorciar por qualquer motivo, enquanto os discípulos de Shamai admitiam o divórcio somente em caso de imoralidade sexual. Jesus concordou com Shamai. Mas o apóstolo Paulo acrescentou mais um motivo legítimo para o divórcio: o abandono pelo descrente por motivo da fé de seu cônjuge convertido.

As comunidades cristãs têm nas mãos as “chaves do reino”, isto é, têm o direito e o dever de avaliar o jugo que se deve impor aos discípulos cristãos em cada contexto sócio-cultural aonde chega o evangelho. Toda comunidade cristã deve ter a coragem de afirmar “pareceu bem a nós e ao Espírito Santo não lhes impor nada além das seguintes exigências...”. Tanto o moralismo legalista quanto a permissividade libertina causam mal às pessoas que pretendem viver de modo digno do Evangelho de Jesus Cristo.
____________________________
Para aprofundar sua reflexão, recomendo: Bell, Rob. Velvet Elvis. Zondervan.

10 Comments:

Blogger MarcosFF said...

Quando o jugo e passado de um ao outro, creio que também a autoridade para impor o jugo também passará. O que vemos agora é cada um inventar seu jugo e impo-lo ao outro. Cuidado gente...o que de graça recebestes, de graça dai...Fui...

6:06 PM  
Blogger Valmir said...

Quem recebe o jugo de Cristo não consegue não passar este pois a experiência é real e vc quer que outros possam vivê-la também.
Mas o jugo de Cristo não dá sensação de controle e não exige certos "resultados" aí não tem graça, tem Graça e onde tem Graça a lei não tem graça.

11:30 PM  
Blogger Valmir said...

Complementando, a Igreja deveria compreender melhor tempo em que vive hj assim como o Senhor Jesus e Paulo compreendiam o tempo em que viviam e agiam com bom senso.
Penso que as vezes fazemos leituras muito parciais do Evangelho. Ao invés de nos fixarmos na letra, é necessário entender o Espírito da coisa e aplicar ao nosso tempo.
Usos e costumes passam.

11:37 PM  
Blogger Paulo Cruz (PC) said...

...e lá vêm os americanos de novo!

Abraço,
PC

4:56 PM  
Blogger Esequiel said...

A Igreja estaria certa em condenar Adolfo von Harnack's, Jon Sobrino's, Spinoza's da vida?

5:18 PM  
Blogger r. said...

pr. eu gosto muito do que vc escreve. Vc permitiria que eu publicasse seu artigo no meu blog? eudeuseomundo.blogspot.com- é um blog simples para jovens e eu penso que este texto sobre o jugo iri abençoar a turma.
grande abraço
rodrigo

2:54 PM  
Blogger MSílvia said...

será que o "Jugo de Jesus" não é uma relevação do Espírito Santo para o indivíduo (que é o templo do Espírito) e não para a igreja (comunidade local)???

Será mesmo que a igreja tem o direito de impor exigências?

9:14 AM  
Blogger Wesley de Oliveira Mota said...

Tenho Vibrado o meu coração com este assunto, e outros como este, e sinto muita necessidade de leva-lo a evidencia em nosso meio evangélico, como os primeiros apostolos o fizeram com audacia do Espirito Santo, e o fariam hoje em nosso meio. A igreja tem apresentado um jugo dizendo ser de Cristo e exigido, ela mesma, resultados que deveriam ser fruto do conhecimento da verdade. Tenho visto que a igreja tem gasto energia em exigências, em vez de se empenhar no ensino, lembrando que o conhecimento da verdade é que deve transformar o homem. Tem se perdido de vista a necessidade de promover e influenciar desenvolvimento espiritual, pessoal, no relacionamento cotidiano, e aí sim, usando da autoridade e direito passado por Cristo em seu jugo, para, começando pelo ensino, e não pela exigencia, uma demonstração de como viver em Cristo nos dias de hoje, e se necessário com advertência, admoestação ou repreensão com todo amor e longaminidade. Tenho visto nossas igrejas diciplinarem com base em tradição, na repetição do que ja foi aplicado a outros anteriormente, e muitas vezes com preocupação no julgamento do mundo, da sociedade, (...O que os outros vão dizer da igreja?) e não em como o próprio Jesus Julgaria o caso.
Pr Ed, dei muitas glórias a Deus por sua vida quando ouvi a mensagem gravada na Convenção B.de S.Paulo (sua versão do menino sorveteiro), e quando descobri, agora, o seu blog. Senti como se sentisse sua agonia, preocupação pela igreja, e ou represália (o que tenho eu sentido). Informaçõs de conhecimento histórico que tenho aprendido em suas mensagens, como a relação do jugo de Cristo com as regras do jugo dos rabinos, que eu não sabia, tem me aberto um leque de visão, e tem me feito mais convicto do que tenho afirmado em meu convívio, aprtir de minha própria familia. Pensando nisto também abri um blog, (wesleyomota.blogspot.com) mas vinha muito constrangido em levá-lo a frente por ser um leigo, em formação teológica, mas tenho cada dia desenvolvido coragem, e penso em me espelhar, primeiro em Cristo, depois nos profetas antigo e nos de hoje, como voce.
Agradeço a Deus pela sua vida.

10:23 PM  
Blogger ana said...

Pr.Ed Rene,gostou bastante da forma que o sr reflete a vida cristã,igreja e tudo mais.gostaria também de saber se posso usar os seus artigos para edificar as pessoas de minha igreja.Um abraço.Rocinio

3:13 PM  
Blogger Alex Sandro said...

Este comentário foi removido pelo autor.

3:13 AM  

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Ed René Kivitz
Pastor da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), autor e conferencista.
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