3.11.06

A peça ininterrupta

A SENHORA PUXOU PARA O LADO A CORTINA NEGRA DA JANELA DE SEU COCHE E PERGUNTOU:
– Por que não vai mais rápido? Você sabe muito bem o que significa para mim chegar a tempo na festa!
O cocheiro perneta inclinou-se na boléia na direção dela e respondeu:– Entramos num comboio, madame. Também não sei como. Só cochilei um pouquinho. De qualquer modo, apareceram de repente essas pessoas que estão obstruindo a estrada.
A senhora saiu da janela e recostou-se. De fato, a estrada estava cheia de uma caravana de pessoas. Eram crianças e velhos, homens e mulheres, todos trajando roupas de saltimbancos de um desbotado multicolorido e aventureiro, chapéus fantásticos na cabeça, enormes pacotes nas costas. Muitos cavalgavam em muares, outros em cães enormes ou avestruzes. No meio, iam carros de duas rodas, cheios até em cima de caixas e malas, ou charretes com toldo onde viajavam famílias.– Quem são vocês? – perguntou a senhora a um jovem com roupa de arlequim que passava ao lado de seu coche. Ele trazia sobre o ombro uma vara, cuja outra extremidade era carregada por uma moça de olhos amendoados e vestes chinesas. Na vara estavam pendurados vários utensílios domésticos, e no ombro dela um macaquinho com frio. – Vocês são de um circo?
– Não sabemos o que somos – disse o jovem. – Nós não somos um circo.– De onde vocês estão vindo? – quis saber a senhora.
– Da montanha do céu – replicou o jovem, – mas isso já faz muito tempo.
– E o que vocês faziam lá?
– Isso foi antes de eu ter vindo ao mundo. Nasci no meio do caminho.
Nesse momento intrometeu-se na conversa um velho que trazia nas costas um enorme alaúde ou baixo.
– Ali nós encenamos a Peça Ininterrupta, bela senhora. Esse garoto não podia saber. Era uma peça para o sol, para a lua e as estrelas. Cada um de nós posicionava-se num cume e gritávamos as palavras uns para os outros. Ela era encenada sem cessar, pois essa peça conservava o mundo unido. Mas agora a maioria de nós já esqueceu isso. Já faz muito tempo.
– Por que vocês pararam de encenar?
– Houve uma tremenda desgraça, bela senhora. Um dia nós notamos que nos faltava uma palavra. Ninguém a havia roubado, nós tampouco a esqueceramos. Ela simplesmente não estava lá. Mas sem essa palavra nós não podíamos continuar encenando, porque nada mais fazia qualquer sentido. Ela era a palavra através da qual tudo se relacionava com tudo. Compreende, bela senhora? Desde então estamos viajando para tentar reecontrá-la.
– A palavra através da qual tudo se relaciona com tudo? – perguntou a senhora espantada.
– Sim – disse o velho acenando sério, – na certa a senhora também já deve ter notado, bela senhora, que o mundo é composto somente de fragmentos, dos quais nenhum tem nada mais a ver com outro. Ele tem sido assim desde que perdemos a palavra. E o pior de tudo é que os fragmentos continuam a se partir, restando cada vez menos partes que se relacionem com as outras. Se não encontrarmos a palavra que relacione tudo com tudo, o mundo vai acabar um dia se pulverizando por completo. É por isso que estamos viajando para procurá-la.
– Vocês acreditam que um dia vão achá-la?
O velho não respondeu, ele acelerou o passo e ultrapassou o coche. A moça dos olhos de amêndoas, que nesse momento caminhava ao lado da janela da senhora, explicou timidamente:– No longo caminho que percorremos, estamos escrevendo a palavra na superfície da Terra. Por isso não ficamos em parte alguma.
– Ah – disse a senhora, – então vocês também sabem para onde devem ir?
– Não, nós nos deixamos levar.
– E quem ou o quê conduz vocês?
– A palavra – respondeu a moça sorrindo, como que querendo pedir desculpas.
A senhora olhou a moça de soslaio durante um longo tempo, depois perguntou em voz baixa:
– Posso ir com vocês?
A moça ficou calada e riu e, lentamente e seguindo o rapaz à sua frente, ultrapassou o coche.
– Pare! – gritou a senhora para seu cocheiro. Este freou os cavalos, virou-se para trás e perguntou:
– A senhora quer realmente ir com esses aí, madame?
A senhora ficou sentada, muda e empertigada no coxim, olhando fixamente para a frente. Pouco a pouco todo o resto da tropa passou pelo coche parado. Quando o último retardatário passou, a senhora levantou e seguiu o comboio com a vista, até que ele desapareceu na distância. Começou a chover um pouco.
– Vamos voltar! – gritou ela para seu cocheiro, enquanto tornava a entrar no carro. – Vamos viajar de volta. Tomei outra decisão.
– Graças a Deus – disse o perneta, – eu já estava pensando que a senhora queria mesmo ir com eles.
– Não – respondeu a senhora perdida em seus pensamentos. – Eu não seria útil para eles. Mas eu e você podemos testemunhar que eles existem e que nós os vimos.
O cocheiro deu a volta nos cavalos.
– Posso perguntar uma coisa, madame?
– O que você quer?
– A madame acredita que eles encontrem essa palavra um dia?
– Se a encontrarem – respondeu a senhora, – então o mundo deverá transformar-se de uma hora para a outra. Você não acha? Talvez um dia sejamos testemunhas dessa transformação. E agora, vamos embora!

Michael Ende (autor de A História Sem Fim)em seu romance surreal O Espelho no Espelho.

[ Do imperdível Blog do meu amigo Paulo Brabo: http://www.baciadasalmas.com ]

4 Comments:

Blogger Lou H. Mello said...

Parabéns por re-abrir os comentários. Ainda que o inimigo nos acerte com a lança, o derrotaremos se continuarmos a agir como se nada houvesse acontecido, apesar da ferida sangrando.

11:51 AM  
Blogger Lucas Castro e Isa Passos (casados) said...

Olá Ed.
Achei otimo ter achado seu blog. Interessante como sempre!

Bom, temos uma comunidade sua no Orkut. com mais de 600 membros. Apareça por lá se tiver como e leia, veja o que tem acontecido e se possivel, participe conosco.

Sou de Belo Horizonte/MG, muito amigo de sua ovelha Luiz Mhyrra (do som) e de Patricia Croitor (trabalhei como voluntario na missão CENA tb) e fiquei um tempo na casa das irmãs Raquel e Analzira. A primeira vez que o vi pregar foi na inauguração da outra base IBAB, nao sei, na zona leste de SP (nao me lembro onde foi).

Grande abraço e ansioso por chegar seu livro aqui em BH e ler.

Deus abençoe o senhor,
Lucas

4:27 PM  
Blogger Humberto Ramos said...

Parabéns por abrir os comentários. Abraços fortes.

10:09 PM  
Blogger O Huguenote said...

Uma pergunta para o Lou:A que ''inimigo '' se refere?????

2:35 PM  

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Ed René Kivitz
Pastor da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), autor e conferencista.
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Os artigos reunidos neste livro não são expressões de rebeldia à ortodoxia cristã, mas de inquietude diante de uma Igreja que...
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  • BOSCH, David. Missão transformadora: mudanças de paradigmas na teologia da missão. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002.

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  • "A missão é o sim de Deus ao mundo; a participação na existência de Deus no mundo. Em nossa época, o sim de Deus ao mundo revela-se, em grande medida, no engajamento missionário da igreja no tocante às realidades de injustiça, opressão, pobreza, discriminação e violência."
    David Bosch
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